Embora eu raramente peça por isto, eu recebo uma boa quantidade de currículos. Alguns são de amigos procurando emprego, mas muitos são de desconhecidos. Infelizmente há pouco que eu possa fazer por estes, embora eu tente ao menos indicá-los para algum parceiro ou conhecido quando é relevante.
Muitas vezes, porém, fica difícil até tentar indicar para alguém. Existem currículos tão fracos que chegam a dar pena.
Para os paladinos que sempre estão de plantão: não estou falando em pouca experiência, estou falando dos currículos propriamente ditos.
Há alguns dias recebi um do tipo. Não é de ninguém que eu conheça, o que em si só já valeria alguns comentários, mas deixemos para outra oportunidade. Resolvi apontar os erros que vi para tentar ajudar quem estiver à procura de emprego.
Comecemos pelo início...
Claramente temos um grave problema de
excesso de informações irrelevantes aqui. Alguém dirá que para algumas funções pode ser importante incluir o número da carteira de habilitação. Verdade. Mas não é o caso aqui. Eu não preciso disso. Outros argumentarão que informação nunca é demais, ao que eu contra-argumentaria:
- Informações como estas podem ser usadas para fazer-se pesquisas em órgãos como, por exemplo, um Serasa da vida. Mesmo que você não tenha nada a temer, saiba que informações incorretas existem e se este tipo de pesquisa for feita sem seu conhecimento, você não terá oportunidade de defender-se. Em outras palavras, informações irrelevantes não lhe trazem nenhuma vantagem, mas podem vir a virar desvantagens. Não dê margem ao azar.
- A verdade é que na maioridas das vezes, as pessoas vão só dar uma olhadela rápida em um currículo antes de decidir se o ignoram ou se o mantém para futura revisão. A atenção perdida lendo informações irrelevantes é subtraída da atenção que seria dada às partes mais importantes.
Logo depois temos outro caso clássico de informação irrelevante:
Ora, se você fez um curso superior, pode-se assumir com absoluto grau de certeza que você completou o ensino médio. Não há necessidade de afirmar o óbvio.
Então chegamos àquilo que é, sem dúvida, a parte mais importante de um currículo:
a parte em que você me convence que deve ser contratado. Infelizmente, um número alarmante de currículos são como este:
Onde começar? Existem tantos erros gramaticais acima que fica realmente difícil. O que este parágrafo me diz, na verdade é:
Eu resolvi não me dar ao trabalho de sequer ler este parágrafo uma única vez antes de enviar. Eu não sei escrever em minha própria língua e não vou me dar ao trabalho de aprender. Tenho dificuldade em me expressar e me comunicar.
O
jetset esquerdista me acusará de elitista. Dirão que nem todos tiveram as mesmas oportunidades. Mas (a) estou tentando ajudar e (b) quem completou ensino superior no Brasil é, por definição, elite, e teve, sim, muita oportunidade de aprender. Além disso,
o processo de conseguir um emprego é inerentemente elitista. É seu trabalho tentar aumentar suas chances. Mesmo assumindo que você não tenha tido, por alguma conjunção astral obscura, nem uma única oportunidade de aprender o português, então procure alguém que o tenha. Devem existir pelo menos um ou outro lusófono perto de você.
Errar no português, todo mundo erra. Mas não há desculpa para aquele parágrafo em um currículo.
Por fim, acho que vou brigar com profissionais de recursos humanos aqui.
Qual processo mental leva à decisão de incluir seu salário em um currículo enviado a desconhecidos? Sei que muitos profissionais de RH sugerem que os currículos devem incluir pretensão salarial. Pessoalmente eu não gosto muito disso, pois nada de bom pode sair daí. Mas claro, se o empregador pede isso, tem que colocar.
Mas daí a incluir seu salário em um email para desconhecidos?
Qual a vantagem possível que você teria ao incluir esta informação? Eu afirmo que absolutamente nenhuma.
A única coisa que você praticamente assegura é que não vai ganhar mais do que ganha hoje. Aliás,
provavelmente você está assegurando-se de ganhar menos.
Se eu tiver uma vaga que pague R$ 3000, vou considerar que você não se valoriza muito e, portanto, não deve ser muito bom. É psicológico. Se por outro lado, você estivesse pedindo R$ 6000, eu simplesmente acharia que você deve ser bom, mas não está pedindo um salário muito realista. Infelizmente não posso pagar isso.
Em ambos os casos você perdeu a vaga (o que pode ser bom ou ruim, é claro). É quase uma loteria. Você teria de acertar (ou ficar bem próximo) daquilo que o empregador considera a faixa natural daquela vaga. Acima ou abaixo e você cai fora.