Ateísmo Fundamentalista
Por alguma razão desconhecida – quiça algum programa recente na televisão ou matéria de alguma revista – me parece que nos últimos dias algumas pessoas se viram compelidas a proclamarem com orgulho seu ateísmo.
Vou chamar isso de ateísmo engajado, enquanto um amigo cunhou o termo que usei no título. É um fenômeno religioso que foi popularizado por Richard Dawkins.
Ontem, após ver três exemplos independentes de ateísmo engajado quase que ao mesmo tempo, eu comentei no Twitter:
e The Ancestor's Tale
. Dito isso, o seu livro The God Delusion, a bíblia sagrada do ateísmo, é um festival de obviedades ditas com tom de quem está fazendo uma grande revelação. Pior, é escrito de forma a atingir única e exclusivamente outros ateus. Richard Dawkins, do alto de todo seu conhecimento, deixou sua religião distorcer s
Uma vez vi uma citação, mas não lembro quem foi o autor:
Ok, vou dizer: ateísmo engajado é absolutamente tão chato quanto um crente. Igual. Exatamente igual.A primeira coisa que sai deste comentário é que sim, eu acho crentes (engajados) muito chatos. Os crentes chegam despejando sua logorréia sem sentido de argumentos rasos. Uma verdadeira verborragia. Dito isso, o segundo ponto tirado do comentário é que acho que o ateísmo engajado trilha o mesmo caminho. O ateu despeja uma torrente de argumentos rasos o tempo todo, o que nos leva a (o que deveria ser) uma obviedade (via Twitter do epx):
@robteix ateísmo é uma religião como qualquer outra. Os agnósticos é que estão certos.Sim, ateísmo é uma religião, pois baseia-se nos mesmos preceitos: crença cega em algo intangível. Os argumentos são, exatamente como os dos teístas, otimizados para seus próprios membros. É apenas uma religião não-teísta, mas ainda assim uma religião. Voltemos ao Dr. Dawkins para servir de evidência. Seus livros sobre evolução são fantásticos. Em especial, sugiro a quem se interessar pelo assunto que leia o clássico The Selfish Gene
You cannot reason people out of a position that they did not reason themselves into.Faz sentido. Tentar usar argumentos lógicos contra uma crença ilógica é contraproducente. Argumentar que deus não existe porque não pode ser provado não funciona com quem não acha que necessite de provas. E isso sem considerar que no final das contas é impossível provar que algo não existe. O fundamentalismo ateu é tão desagradável quando o fundamentalismo teista. Ambos são fundamentalismos religiosos e, como tais, deveriam ser combatidos. E antes que alguém me acuse de crente, deixe-me deixar claro que: eu não acredito em um deus. Não acredito no sentido de “não sei se existe, e nem me interesso em saber”. É um sentido bem diferente de “eu sei que não existe um deus porque X”, onde X é alguma racionalização. Em outras palavras, se um deus – talvez sejam vários – existe, ele claramente não tem qualquer influência prática na minha vida, de forma que posso ignorá-lo sem que isso me afecte de qualquer forma. Na prática, se deus existe, ele age como se não existisse e por tanto é irrelevante. Sempre me considerei um “agnóstico”, o que muitos ateus entendem como alguém que não quer tomar um lado. O Michaelis define agnóstico assim:
agnóstico adj (a4+gnóstico) Pertencente ou relativo ao agnosticismo. sm 1 Partidário do agnosticismo. 2 O que ignora ou aparenta ignorar tudo quanto não caia sob o domínio dos sentidos.Então de certa forma os ateus têm razão: eu não quero tomar um lado. De um lado está a crença na existência, do outro na inexistência. Ambos são crenças e ambos não conseguem ver que existe outra opção: a descrença.

